Revolução em cada canto…

Jan 24, 2012   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas, Sem categoria  //  No Comments

Quem não viu nada nesse país chamado Brasil nada pode dizer. São casas de madeira, poucas com sustentações de vigas, enquanto outras custam milhões de dólares.

Um livro que não sai da minha mente é Capão Pecado. Acho que a leitura dele fez com que algumas peças de um quebra-cabeça se juntassem, principalmente quando penso nas diversas favelas que pisei. Os motivos foram diversos… Um deles a educação em sinergia com as articulações sociais. Quem poderia imaginar? Agora, quanto à leitura do livro, recomendo. Além da leitura é importante você ir a algum lugar ver o trabalho de quem faz coisas inimagináveis, pelo sonho de acreditar que a revolução que acontece na periferia influencia não apenas por lá, mas, também, nos grandes centros. Essa revolução cultural, como sempre acontece sem a velha mídia pautar, a não ser quando o assunto decorrente são as tragédias, é inevitável.

Penso nessa questão da própria visibilidade. Em alguns momentos pessoas são visíveis pelos erros que cometem, mas nunca pelos acertos. Isso não dá audiência. Nenhum patrocinador quer dar cobertura ao sucesso de quem nada tem de material. Aí fica por isso mesmo, pessoas pobres ficam mais pobres ainda quando uma mãe  tem que dar um depoimento na televisão dizendo que deu tudo ao seu filho e mesmo assim ele escolheu a vida do crime. Ela deu tudo… Agora, e o governo? E as empresas racistas? Será que os que mais vão para esse caminho encontram escolas dignas em seus bairros? Quero refletir com cuidado, com certa criticidade, sabendo que muitos nem terminam o ensino fundamental e já vão para o mercado de trabalho para garantir o sustento de um lar que muitas vezes os filhos nem sequer conhecem o pai, que abandonou ou foi assassinado em algum lugar. Que tipo de futuro em um país extremamente segregacionista esses meninos e meninas têm? Sim, eles são capazes de conquistar coisas e de ter um futuro brilhante. Agora, quem resiste a todas as barreiras impostas pelo capitalismo? Pare, pense e veja como é viver em um mundo como o nosso…

Muitos caminham de modo invisível. Ninguém quer ver o que não é agradável. Quem consegue sonhar em um lugar que nem dão espaço para os sonhos? E quando meus olhos abriram, em uma manhã qualquer, pude ver centenas de crianças, jovens e adultos, esperando um futuro que nunca chega.

Com raiz nas coisas que aprendi no passado também percebi que muita gente nem sabe que saber do passado é o que garante o próprio amanhã. Quando sonhei com o futuro, sem poder saber de nada que plantei, pude ver alguns sorrisos de jovens quem não têm motivo nenhum para sorrir. Sei que eu e você reclamamos de coisas bobas. Enquanto isso tem famílias que clamam para que do céu não venha água, assim não tem nenhum risco de abalar a estrutura de uma casa que é feita de madeira e que tem alguns detalhes do acabamento com papelão. Mas não para por aí… Quem é que pode imaginar a diferença de sentimentos daquela mãe que comemora a entrada do filho na Universidade de São Paulo enquanto a outra visita seu filho – da mesma idade daquele que se alegra com sua entrada no mundo acadêmico – em uma penitenciária. Uma das perguntas que vem é o que nós temos a ver com isso? Mas devolvo outra que serve inclusive pra mim: não consegue se colocar no lugar do outro? Todo mundo se desgastando, olhando para o nada, quando não para o próprio infinito, encontrando uma geração que acredita em uma série de coisas e ao mesmo tempo em nada, enquanto quase todo mundo é tomado por um individualismo extremo, sem nada querer fazer pelo outro. Nada substitui o que realmente poderíamos fazer por aqueles que nos cercam. Às vezes, a melhor ação que podemos fazer pelo mundo nem é uma articulação em grande escala, mas aquela que envolve as pessoas que estão ao nosso lado. Já pensou nisso?

Alguns até mesmo pelo interesse de ser idolatrado pela multidão. Todos nós queremos ser vistos. A diferença da visibilidade para o interesse pernicioso está em como queremos ser vistos, para tirar proveito de alguém ou para dizer, com diversas palavras ou atitudes o quanto amamos estar ao lado das pessoas ou do que gostamos de fazer por elas ou com elas. Está aí a grande diferença…

Em um momento de minha vida me deparei com a história de Nelson Mandela. A vida dele foi em detrimento dos outros. Não me deixo levar apenas pela imagem, pelo que me disseram ou apenas por uma leitura superficial. Fui buscar a fundo, apenas ainda não na África, pessoalmente. Digo que isso é questão de tempo, falta pouco.

Vinte e sete anos preso não é brincadeira para ninguém. Quem suportaria isso a nível psicológico e espiritual? Eu e você suportaríamos? Acho que não, principalmente nesse sistema prisional injusto que o mundo inteiro herdou – pense no número de prisões que temos que nos deparar.

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