Você já participou de oficinas de escrita criativa?

Mar 4, 2017   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog  //  No Comments

No ano passado, segundo semestre, participei de algumas oficinas de escrita criativa no Sesc Ipiranga. Coordenadas por Marcelino Freire, um escritor que dispensa apresentações. Valeu, mestre!

Clique na imagem e conheça a Toca de Marcelino Freire. Foto: Jorge Ialanji Filholini

Clique na imagem e conheça a Toca de Marcelino Freire.
Foto: Jorge Ialanji Filholini

Em pouco tempo, durante os encontros, um por semana, com aproximadamente quinze participantes presentes, recordei por quais razões peguei gosto pela leitura e escrita. É sempre bom reforçar os alicerces, as bases, remontar as origens, especialmente quando o assunto é o apreço pela cultura universal e como podemos mergulhar nas histórias do mundo por intermédio dos livros.

Oficinas recheadas de conversas literárias, citações de clássicos e escritores atuais, inclusive com motivações para que nós, enquanto participantes, entrássemos em contato com os que poderiam contribuir no desenvolvimento de nosso trabalho. Eu, por exemplo, fui motivado a conhecer o trabalho de Geni Guimarães, escritora negra, contista. O que ela escreve conversa com minha obra. Quer saber mais sobre sua trajetória? Clique aqui.

Houve também leituras de crônicas, contos e poesias e muitos exercícios, um a cada semana, para estimular e profissionalizar a escrita. Um mergulho interno para depois externalizar as ideias. Aumentou ainda mais meu repertório.

Há muitos anos coordenando oficinas de criação literária, o escritor Marcelino Freire é um provocador. E, com suas provocações, tem ajudado a tirar da “gaveta”, por todo o país, muitos projetos de livros, nos gêneros mais diversos. Autor de obras como “Contos Negreiros” (Prêmio Jabuti 2006) e o romance “Nossos Ossos” (Prêmio Machado de Assis 2014), ambos publicados pela Editora Record, Freire compartilha com os participantes de suas oficinas – seus “parceiros de escrita” – aquilo que a prática, para ele, tem ensinado: “livro bom é livro em movimento”. Tocar em frente é o segredo, afirma. Citando a escritora Clarice Lispector, “escrever se aprende escrevendo”.  (Confira mais informações clicando aqui)

As oficinas me fizeram lembrar dos clássicos esquecidos em mim, visitá-los novamente. Destaco “Memórias do Subsolo” e “Noites Brancas”, ambos de Fiódor Dostoiévski. Livros que eu lia sempre, mas, por alguma razão, precisaram ser lembrados. Isso aconteceu naturalmente, ao longo das conversas livres e das dinâmicas para, principalmente, trabalhar as técnicas de escrita.

Marcelino nos mostrou a importância de dar valor para cada palavra, nunca subestimar o leitor, para produzir textos com frases imprevisíveis, daqueles que pegam o leitor desprevenido, não prendendo atenção, mas libertando. Das palavras torpes, daquelas que encontramos esmiuçando, não crendo na inspiração pura, mas no trabalho do escritor garimpeiro, do que está sempre lapidando as letras, não se contentando simplesmente em jogar as palavras ao vento.

Manoel de Barros foi quem nos ensinou. Exemplo apreendido por ele em conversa com o amigo Millôr Fernandes: “todo escritor tem de ter uma toca”. O lugar que o escritor escolhe e destina para ficar lá, mexendo nas palavras, construindo o repertório, conversando com os personagens, rabiscando prosas e versos, descobrindo os caminhos da escrita. “Todo mendigo faz o mesmo”, costumava dizer o poeta mato-grossense. Pois bem, é esta a filosofia da Oficina Toca, coordenada por Marcelino Freire: cada um começar a encontrar este “canto/casulo”. De pensamento e de experimentação. E, a partir daí, “tocar” em frente, dentro de sua aspiração literária, o que quiser “tocar”. (Um dos trechos que descreve a Oficina Toca, projeto coordenado por Marcelino Freire)

Pode parecer clichê, porque muitas pessoas já disseram isso, mas foi nesse espaço, também, que Fernando Pessoa (através de seu heterônimo, Álvaro de Campos) me despertou, novamente, para a poesia e outros formatos de escrita. Quem participar das oficinas de Marcelino saberá por quais razões faço essa afirmação.

Compartilho um escrito de minha autoria que surgiu em um dos encontros, “Antítese do Mito da Caverna”. Depois desse, uma chuva de poesias totalmente inéditas. Escrevi ao longo dos dias, uma após outra. Quem sabe será meu primeiro livro de poemas? Ainda não sei, mas parece que sim.


a toca da coruja

é a antítese do Mito da Caverna

 

um é sombra com esperança de luz

a toca é só sombra

 

convite aos clássicos filosóficos de todos os tempos

em que lugar está o intocado?

quem revela é o olhar mais que penetrante

 

monitoria subterrânea dos sentimentos metafóricos

os que não queremos revelar

 

inútil

 

as corujas como os deuses captam o não-dito

universal e holístico

 

sabe aquele conhecimento que pode ser aplicado em todos

os saberes em qualquer lugar desse mundo ou fora dele?

 

assim é a toca que nos toca

ela é mais conhecida como universo

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