Variações do mesmo tema

Mai 3, 2011   //   by Jean Mello   //   Blog, Crônicas  //  1 Comment

Com tantos acontecimentos ao longo de nossa história, quero olhar para a atualidade e compartilhar algumas questões que me preocupam – esse espaço não é suficiente para falar de todas as coisas que desejo. Aos poucos vou dizendo. Meu compartilhar será a cada crônica, os temas não se esgotam. Ao contrário…  A cada dia nasce um novo olhar acerca das antigas questões, que infelizmente são mais atuais que nunca.

Um educador, ao tentar descontar seu pagamento em uma agência bancária, foi barrado pelo fato de ser negro – não dá para banalizar esse tipo de acontecimento e transformá-lo em algo comum. Ainda existe algo no imaginário das grandes instituições brasileiras, que automaticamente chega até a população, de que existe o perfil do suspeito. Dá para acreditar em algo assim?

Muitos ficam apenas sensibilizados, mas ouvi uma frase de Telma Vinha que diz que a ética não está apenas nos sentimentos, mas nos atos. Ser apenas sensível com a causa contribui em partes, porque apenas a sensibilidade não alcança a ética. É necessário ter atitudes.

Uma pausa para dizer que a liberdade é o que temos de encontrar. Essa situação não é benéfica para ninguém. Até mesmo os que acham que estão ganhando, negando a existência da discriminação, mas sabendo que se alimenta consideravelmente dela, não estão encontrando o caminho da liberdade.

Um dos livros organizados por Kabengele Munanga, Superando o Racismo, uma reunião de artigos de muitas pessoas renomadas, publicado com o apoio do Ministério da Educação e de outras instituições, me fez perceber que é necessário que o mundo se liberte do racismo.  Sim! Que sejam todos livres…

Quando penso em liberdade também me vem à mente Paulo Freire. Este educador, durante seus dias, e até mesmo atualmente através de suas produções e legado que deixou na formação de outros educadores, lutou favor a favor do reconhecimento dos saberes populares e da valorização das diversas culturas – estou restringindo nesses eixos, mas as questões que ele trabalhou foram outras mais. Depois de um desses dias, após concluir a leitura de um de seus livros, África Ensinando a Gente, percebi o quanto as suas teorias podem contribuir para o fortalecimento de ideias que favoreçam a igualdade de oportunidades para todas as etnias. Vale a pena entrar em contato com um material tão rico quanto esse. Garanto que a partir desse, você vai encontrar outras coisas, citações do próprio Freire, que apontam para o cuidado que ela tinha com essa temática. Fica apenas a pergunta se nas faculdades de educação, das principais universidades do país – que tanto gostam de citar Paulo Freire – isso que aqui estou trazendo é abordado ao longo da formação acadêmica de diversos (as) docentes. Preciso dizer qual é a possível resposta?

Os poucos homens negros com alto poder aquisitivo que existe no Brasil falam que quanto mais influentes ficam mais o racismo aumenta. Engraçado, já ouvi dizer que o preconceito social é muito maior. Sei que ele existe e que assola muitas pessoas. É só olhar para as condições subumanas que diversas famílias enfrentam morando muitas vezes nas beiras dos córregos. Só que nessa questão da pobreza existe um recorte étnico-racial que é bastante significativo. Será que pulverizando o problema não consiste em mais uma tentativa de desviar o foco e esquecer que o que hoje existe, diante de nossos olhos, disponível para quem quiser ver, está por aqui apenas por termos uma história que foi alimentando aos poucos essa situação? É como se todas as situações dissessem para que os que nasceram pobres devem continuar sem nenhum dinheiro para sobreviver. Quem é que discute distribuição de renda?

É óbvio que os negros que alcançaram um poderio econômico enfrentam outra face do racismo, bem diferente da que está presente nos quilombos da modernidade, falo da famosa favela. Vamos mudar apenas um pouquinho de assunto…

Quero saber quantos dos jovens negros conhecem detalhes de sua origem. Qual o nome do seu bisavô e bisavó? Qual deles nasceu no continente africano? O que eles gostavam de fazer? Pergunte para seus pais, se possível aos avós, se eles podem passar informações. Quase todos nós não sabemos – minha próxima matéria será sobre meu próprio bisavô. Ele foi o homem mais velho de uma cidade do interior de São Paulo. Faleceu com mais de e cem anos de idade. Se isso é história, por qual motivo não vejo ele e outros descendentes de africanos em nenhum livro didático?

PS – Se quiser saber mais a respeito do educador que sofreu discriminação em uma agência bancária, clique aqui.

Por Jean Mello

Ilustração Rodrigo Kenan

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