Refletindo sobre a palestra na Escola Estadual Hadla Feres: uma forma de mobilização

Oct 12, 2011   //   by Jean Mello   //   Blog  //  2 Comments

Em 14 de setembro de 2011, como um dos participantes do ciclo de palestras sobre empregabilidade, contando com profissionais dos mais diversos, falei sobre minha atuação enquanto educador social, blogueiro e escritor para dois grupos de jovens de primeiro ano de ensino médio da Escola Estadual Hadla Feres.

Em Carapicuíba, que hoje em dia tem por volta de 400.000 habitantes, a escola fica a mais ou menos meia hora do centro da cidade em um bairro chamado Vila Dirce. Não dá para repetir o jargão que envolve questões estruturais ou problemas de vulnerabilidade social que atinge também esse bairro e por consequência a escola. Trocar aqui algumas informações tem que me fazer colocar em evidência o que a comunidade escolar feito resolver o que aparece pelo caminho. Pelo menos essa é a visão que tenho e que é respaldada por alguns educadores que admiro.

É bom ressaltar que essa foi uma iniciativa da própria escola e que pode se desdobrar em outras mobilizações. Uma das coisas que me chamou atenção foi o envolvimento de parte do corpo docente, representado pela professora e mediadora de conflitos, Raquel Bertolai e da direção, que promoveu toda articulação através do diretor e também escritor José João de Alencar – Psicanálise e Educação: A escuta e a fala na escola pública e o fortalecimento dos laços sociais, esse é o nome do livro que ele escreveu e que esses dias terminei de ler, recomendo para quem quer fazer algo para que o ambiente escolar seja mais humanizado e humanizante. Será que nas escolas, de um modo geral, as pessoas enxergam o outro como legítimo outro?

Os dois momentos foram muito ricos, sempre com a participação dos educandos. Sim, momentos pontuais, mas que faz parte de coisas que a escola acredita que pode transformar o ambiente escolar em um lugar bem mais participativo e de interlocução com os sujeitos da comunidade. Para trabalhar no combate do que assola o ensino médio no Brasil é preciso inovar. Inovação passa pelo diálogo constante.

É pertinente levantar alguns fatores que gira em torno de um ensino de qualidade, principalmente no que diz respeito ao que é aplicado no Ensino Médio enquanto prioridade e que todos os dias, cada vez mais e mais, os jovens de todo Brasil questionam a aplicabilidade dessas questões no Mundo do Trabalho.

Segundo a pesquisa Motivos da Evasão, da Fundação Getúlio Vargas – FGV-RJ, 40% dos adolescentes que evadem da escola, no Brasil inteiro, entre 15 e 17 anos de idade, o faz por considerar que a escola é totalmente desinteressante. A necessidade de trabalhar é apontada como o segundo motivo pelo qual os jovens evadem, com 27% das respostas, e a dificuldade de acesso à escola aparece com 10,9%. Segundo Marcelo Neri, coordenador da pesquisa, esse problema atinge mais ou menos 20% dos adolescentes entre 15 e 17 anos. Não é hora da escola ser um lugar mais atrativo? Não dá para negar que o questionamento, por parte dos jovens, não está apenas no discurso, mas também na prática. Quantos professores não reclamam, e muito, quanto ao intrigante índice de evasão que é sentido sempre em cada escola. Sem contar os educandos que não vão embora, mas ficam ali apenas para “cumprir tabela”, sabendo, sem pestanejar, que “indo pra escola se tem mais chances de ter um futuro melhor”. Essa última questão colocada é completamente outra, em outro texto dá para discutir melhor.

Quando as escolas trabalham com parcerias sólidas, a possibilidade de fortalecer, ainda mais, as ações educacionais é grande. Diversos profissionais com as mais variadas experiências acabam trazendo outras visões de mundo para o espaço escolar. Sem contar que a ponte com a comunidade no entorno, que só faz acrescentar, se torna mais possível quando junto com os alunos têm líderes comunitários, músicos, teatrólogos, escritores e mediadores de leitura, profissionais de artesanato, etc., favorece as habilidades que muitas vezes está presente no espaço escolar e não são trabalhadas pelas matérias convencionais. Geralmente o número de atividades de um professor é muito grande. Quase não sobra espaço para dar conta de outras questões. Abordo isso, simplesmente por saber que aquele momento não foi apenas uma palestra. Tivemos a oportunidade de perceber que muitos jovens têm outras atividades relacionadas a questões artísticas, por exemplo. Com algumas parcerias dá para trabalhar melhor essas demandas que vão aparecendo e que, às vezes, por falta de outras pessoas para compor o corpo docente, a escola não dá conta.

No momento final de uma das palestras um jovem me perguntou, dentre as diversas perguntas que tivemos, qual é a dica que dou para quem deseja entrar no mercado de trabalho e trilhar uma carreira promissora. Achei a pergunta bem importante. Uma das coisas que disse, se é que podemos dar algum conselho, considerando que cada pessoa tem uma história diferente, é que ter foco em algo é fundamental, isso ajuda alguém a se concentrar para poder se desenvolver melhor, sabendo que podemos guardar todas as coisas, menos o tempo, porque ele passa e se não aproveitarmos as chances que ele traz acabamos apenas frustrados e não realizados.

PS – Algo que não dá para deixar de fora é ainda a presença de preciosidades da cultura indígena nas nomenclaturas espalhadas pela cidade de Carapicuíba e até de aldeias que ainda estão vivas. Mergulhar na história de Carapicuíba é se deparar com a contribuição que a cultura indígena deu e continua dando para o Brasil. Infelizmente, sabemos que essa nossa riqueza é negada a todo tempo até mesmo em espaços que se dizem pedagógicos.

Se quiser olhar a pesquisa sobre os Motivos da Evasão, que citei em uma parte do texto, clique aqui.

Agora, quanto a escola Hadla Feres, assim como muitas outras, está lutando para trazer a comunidade escolar algumas coisas diferenciadas, devemos aplaudir de pé iniciativas como essas. As fotos do encontro já estão disponíveis. Vai lá dar uma olhada.

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  • Acreditar é poder confiar nos próprios sonhos. Sonhar é poder vencer as adversidades que surgem
    em nossas vidas, é por isso que Paulo Freire disse:” Minha presença no mundo, com o mundo e com os outros implica o meu conhecimento inteiro de mim mesmo. E quanto melhor me conheça nesta inteireza tanto mais possibilidade terei de, fazendo história e por ela sendo feito, como ser no mundo e com o mundo, a leitura de meu corpo como a de qualquer outro humano implica a leitura do espaço e do tempo em que vivemos:”
    Acredite sempre, e seja feliz.

  • […] Refletindo sobre a palestra na Escola Estadual Hadla Feres: uma forma de mobilização […]

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