Por uma infância sem racismo

Out 27, 2011   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog  //  3 Comments

 

Escola da Zona Norte de São Paulo é pichada com a frase “vamos cuidar do futuro das nossas crianças brancas”, acompanhada pela suástica. Por que isso ainda acontece?

No último dia 20 de outubro, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançou em São Paulo a campanha contra o racismo: “Por uma infância sem racismo”. A cerimônia aconteceu no CEU Jambeiro, em Guaianases, na Zona Leste da cidade. A iniciativa tem como objetivo fazer um alerta à sociedade sobre os impactos do racismo na infância e adolescência e sobre a necessidade de uma mobilização social que assegure o respeito e a igualdade étnico-racial desde a infância.

O lançamento está sendo acompanhado por ampla campanha publicitária nos meios de comunicação e espaços públicos. Os ônibus da capital paulista, por exemplo, ostentam cartazes que buscam sensibilizar a população acerca do impacto da discriminação na fase inicial da vida — e o quanto isso pode estar presente em todos setores da sociedade. “Não classifique o outro pela cor da pele. O essencial você ainda não viu”, diz o material. A Unicef também disponibilizou na internet, para download gratuito, uma cartilha para explicar os malefícios do racismo para as crianças e a importância de combatê-lo.

Ao mesmo tempo em que a campanha ganha corpo na cidade, porém, alguns episódios pretendem conduzir a sociedade no caminho contrário. No dia 16 de outubro, o muro da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Guia Lopes, localizada na Freguesia do Ó, Zona Norte de São Paulo, teve seu muro pichado com a seguinte frase: “vamos cuidar do futuro das nossas crianças brancas”. A frase, escrita nas cores preta e vermelha, foram acompanhadas pela suástica, substituindo as aspas, objetivando intimidar a escola para não avançar nas intervenções pedagógicas que vem realizando em prol da valorização da diversidade étnica e racial.

Desde que começou a realizar atividades respaldadas nas diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais, os integrantes da comunidade escolar já esperavam alguma reação. Inclusive, já havia acontecido. Porém, a pichação do dia 16 extrapolou as expectativas.

Em relato escrito ao Portal Geledés, a professora Ana Carolina Bonjardim Filizzola diz que, alguns dias antes da pichação, as crianças puderam vivenciar uma oficina de tambor e música com um grupo de reggae rastafari. “Diferentes atividades com música, fotografia, corpo e arte têm sido realizadas na escola com vistas a uma formação que vá na contramão do preconceito e incentive/cultive relações de solidariedade, respeito, amizade, não preconceito”, explica a docente.

Um texto assinado por Lucimar Rosa Dias, Maria Aparecida Bento e Waldete Tristão, que consiste em uma carta de solidariedade à escola, traz a afirmação de que parte da equipe pedagógica da EMEI Guia Lopes contribuiu para formulação de material didático-pedagógico, como participantes do projeto da Rede Educar para a Igualdade Racial na Educação Infantil (UFSCar/MEC/CEERT). Todo esse trabalho é reflexo de mobilização presencial, envolvendo a comunidade escolar e a comunidade do entorno em iniciativas que visam a diminuição da discriminação racial. Difícil missão, enfrentada com destreza por profissionais da educação, apesar de em muitos lugares ainda ser iniciativas isoladas, algo que não era o caso dessa escola.

Escrevi uma crônica em março desse ano, Cabelos Grisalhos, na qual conto o caso de uma criança que queria deixar de ser negra. Para alcançar tal feito, ela começou a raspar seu braço no concreto. Esse depoimento de Hernani Francisco da Silva foi registrado no livro Heróis Invisíveis, material que fala de pessoas que realizam ações que não são conhecidas, mas, ao mesmo tempo são fundamentais para o desenvolvimento humano. No caso de Hernani, sua ação consiste em trabalhar para a diminuição da discriminação racial em igrejas evangélicas. As duas citações que coloquei acima vem do site que ele criou para ser uma das fontes de consulta para quem também deseja desenvolver algo com essa finalidade, ou mesmo ser base para algumas afirmações.

Os pais dos alunos da escola serão convidados no dia 10 de novembro, para debater o assunto junto com integrantes de movimentos pela diversidade étnico-racial. Além disso, outra resposta da escola será dar continuidade à passeata pública em novembro, mês da Consciência Negra, como aconteceu nos anos anteriores. Quanto ao muro, crianças, professores, pais, vizinhos, etc., responderão com manifestações artísticas.

PS – Mais informações sobre a ação desenvolvida pelo EMEI Guia Lopes pode ser encontrada no site do CEERT.

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