A juventude que não é levada a sério..

Jan 20, 2012   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  No Comments

 

Conheço muitos jovens que gostam de caminhar de noite, encontrar nestas idas e vindas a liberdade. Mas não me contento com isso, pois a realidade não demonstra jovens tão livres assim.

No Grajaú, bairro chamado Cantinho do Céu, participei de um projeto social em que fui educador de alguns jovens, em oficinas de comunicação comunitária.  Essa foi uma iniciativa do Cenpec junto com a Cidade Escola Aprendiz, num programa chamado Jovens Urbanos, em parceria com banco Itaú – o projeto é muito maior, mas essa era a parte de minha responsabilidade.

Era apenas uma experimentação, com encontros pontuais em que tínhamos o objetivo de através da comunicação descobrir e divulgar o que os moradores daquele lugar consideram como cultura e quais eram os lugares, ou mesmo as práticas, quando não aspectos da própria história do bairro, que tinham relação direta com a cultura local. Para falar disso, a fim de que outras pessoas soubessem das coisas que lá fizemos, usamos algumas ferramentas de comunicação. Os depoimentos dos próprios moradores eram o nosso alicerce…

Em um dos encontros – em que estávamos nos preparando para entrevistar líderes comunitários, comerciantes, professores e quem encontrássemos com disponibilidade para trocar informações – começamos a conversar a respeito de como os bairros de periferia e a própria juventude são pautados pela mídia, de um modo geral. Utilizamos reportagens, fotos, vídeos, para ilustrar e alimentar aspectos da discussão.

Uma das conclusões do grupo, e não apenas minha, é que muitas coisas não podem ser levadas a sério. Eram informações um tanto quanto tendenciosas e que tinham o claro objetivo de ter audiência televisiva. O mais curioso é que geralmente muitas pessoas que assistem veem diariamente seus bairros retratados apenas como ambientes de violência. E as coisas boas que acontece em cada lugar, quem é que pauta? Além de tudo isso, a população de um modo geral é obrigada a sempre se ver ridicularizada nos veículos de comunicação.

O que vemos não retrata grande parte daqueles que ainda acreditam na educação.

Quem nunca pisou em um bairro pode dar informações fidedignas do lugar?

Seria melhor ver um poema de alguém.

Ao menos conseguem mostrar alguma beleza de atitude pedagógica?

Quais são as cores e as coisas que darão vida ao que nem dá para ver ressurgir?

Consigo ver escolas que estão no meio do nada, mesmo assim jovens e professores ainda acreditam que podem mudar alguma coisa, sem apoio real a não ser da própria esperança e da capacidade de realmente fazer algo, nem tenho como não acreditar que nada pode acontecer. Não me lembro de ver isso com frequência em algum jornal de grande audiência. Eu que apenas ando em alguns lugares vejo transformações, por qual motivo essas coisas não são noticiadas?

Se pudermos olhar veremos alguma rádio comunitária que produz coisas bem importantes, até mesmo para o desenvolvimento de quem caminha em direção a outro tipo de objetivo.

Alguns até tiveram sonhos, mas acordaram chorando ao ver que nem dá para ter real liberdade de expressão no mundo que cerca cada ser humano, ainda mais nesse país em que tudo é camuflado.

Eu e você sabemos que tratam como realidade o que passa naqueles programas que servem apenas para mostrar a foto de quem está sendo preso e não apresentar nenhum tipo de trabalho positivo que está sendo feito por jovens como os do Núcleo Força Ativa, por exemplo. Já ouviu falar desse grupo que está situado na Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo? Isso ninguém mostra… Dá para você ver presencialmente. Se não quiser, dá para ter uma ideia vendo o documentário Frutos do Brasil. Bem que esse material poderia passar em horário nobre, pelo menos um dia, substituindo qualquer um desse programinhas de alienação extrema.

Voltando ao assunto da Cidade Tiradentes…  Garanto que se for feita uma pesquisa com o número de vídeos ou textos falando da violência daquela mesma região, veremos a rodo. O que quero dizer é que isso se acha muito fácil… Nada disso, diversos são os que lutam para ter um futuro melhor. Em outros casos, não são raros os que remam contra maré para escapar da morte.

Não dá pra culpar ninguém… Também não dá para dizer que a juventude não é mobilizada. O problema é o que mídia mostra como reflexo da juventude brasileira. Não digo que a situação está boa ou que tudo são flores. Mas, queria ter a oportunidade de mostrar o que alguns jovens estão fazendo. O que posso fazer para que isso chegue ao público que me acessa, isso mesmo eu faço através das ferramentas que disponibilizo. Porém, isso que faço e até outras pessoas espalhadas pelo mundo, não chega nem perto do que poderia ser feito se outras instâncias de nossa sociedade tivessem o mínimo de dedicação. A sociedade seria outra, ela teria mais formas de saber a verdade.

Esquecendo um pouco todas estas divagações, olho pela janela de um ônibus lotado de pessoas indo para lugares desconhecidos, e vejo uma criança com um olhar sincero brincando, provavelmente em frente de sua casa e olhando para um homem bem novo que parecia ser seu irmão mais velho. Mas, pela ternura que ele olhava para a criança talvez fosse até seu pai, quem sabe um dos poucos a assumir a responsabilidade de uma pessoa que nem sabe quais são as dificuldades em viver num mundo que não respeita a particularidade e o direito que as pessoas têm de viver. Ambos eram negros.

 

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