O que eles falam sobre os jovens não é sério

Mar 14, 2012   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  1 Comment

 

Texto originalmente publicado em minha coluna de crônicas no Baoobaa

Depois de férias não avisadas – pelo menos das crônicas por aqui – volto mais viajante que nunca.

Nesse site me descobri cronista e por aí dizem que o bom filho a casa torna. Pode parecer um pouco de exagero usar uma expressão assim. Com essas poucas palavras no começo desse escrito posso dar a entender que estou evocando aquela famosa parábola do Filho Pródigo, que andou pelos caminhos do mundo e depois, ao voltar tem direito a uma festa e um anel de ouro no dedo.

Não, nada disso! Quem está fazendo festa por conseguir parar e escrever algo que vem do coração, ao site que aceitou publicar textos que para muitos soam até como produções carregadas prolixidade, sou eu mesmo.

Alegria por discorrer sobre discriminação racial na blogosfera e ter a honra de também percorrer rotas rebeldes como quem está à margem dos cânones editoriais vigentes e pautados pela mídia tradicional. As escritoras e escritores da literatura afro-brasileira que leio sempre, até hoje não estão nos holofotes midiáticos. Denunciar o racismo estrutural tem seu preço, quem entra nessa tem de estar disposto a ser colocado no lado B.

Ainda bem, porque em alguns casos, e a história não me deixa mentir, os revolucionários aos poucos são esquecidos pela multidão e lembrado por alguns poucos que dão continuidade às transformações.

A Mídia Tradicional e suas Mentiras: Cansamos!

Em grande parte por culpa dela [a mídia vendida], que a cada dia que passa, está mais afundada em compromissos com os donos do dinheiro que, por sua vez, são a oligarquia do poder que não está nem aí para a população negra que ainda tem grande predominância nas periferias do mundo, apesar de estar em visível ascensão, não por ajuda de ninguém, mas porque é guerreira e reivindica seus direitos de ter igualdade nas oportunidades.

Talvez por esse motivo, em dias que ainda não correram há muito tempo, pessoas em São Paulo relacionaram os últimos acontecimentos emblemáticos classificados como racistas ou não, e manifestaram-se em um dos templos da segregação racial, shopping Higienópolis.

O grito do protesto, organizado pelo Comitê contra o genocídio da Juventude Negra contra a política higienista que no ápice está, implantada pelo governo de Geraldo Alckmin – sem contar também as atrocidades de Gilberto Kassab – que desabitou moradores de Pinheirinho, de uma polícia, máquina de matança do Estado, que comete racismo na USP e assassina centenas de jovens pelas periferias, é também o grito que outros povos do Brasil estão dando. Em tempos que ainda temos de lidar com trabalho escravo, quem ainda duvida que a face mais cruel do sistema capitalista está posta?

Em uma constituição de metrópole que esteve e ainda está nas costas do povo negro. Não dá mais para aguentar tantas ações de brutalidade, gritemos todos juntos: Por menos que conte a história. Não te esqueço meu povo. Se Palmares não vive mais. Faremos Palmares de novo!

Fatos tão graves que fez em não muitos dias o absurdo de Pinheirinho transformar-se nas páginas de jornais de grande circulação, nas palavras capciosas de comunicadores que jogam do lado de um sistema racista, classificando a resistência da população como atitudes de vandalismo ou de vagabundos aproveitadores.

Quais interesses estão em jogo em defender um governo que cada vez mais oprime e que anda de mãos dadas com milionários que mandam famílias de bem para as favas?

Vale ressaltar que mesmo não tendo ligação com o governo de São Paulo, ainda temos que olhar e perceber o drama da comunidade de Quilombo dos Macacos. Voltemos ao grito! Faremos Palmares de novo…

Juventude do Brasil e as Mobilizações Sociais

Pelo menos não tenho vergonha do que escrevo, até porque falo por mim mesmo e não por ninguém, é justamente a juventude que é pintada nos vídeos sensacionalistas como a geração criminosa e entregue aos espaços mais marginalizados da sociedade, que mais está comprometida com a verdade nas mídias independentes.

São várias histórias, grandes e pequenas, que refletem um Brasil com diversas fronteiras, mas que, aos poucos, vem mudando e tendo avanços. O caminho ainda é longo, porém outras versões dos olhares acerca das realidades sociais, culturais e políticas estão sendo colocadas em pauta, principalmente por jovens cansados desse modelo hegemônico implantado para sempre sofisticar as formas de opressão.

Basta olhar blogueiros e blogueiras, educadores e educadoras, estudantes, artistas, líderes comunitários. Veja o que estão dizendo e como estão engajados. Perceba quais são os lugares que dão espaço para fazer reverberar a voz de cada pessoa. Olhe mais a fundo e descubra quais são os outros lugares que fazem de tudo para abafar as palavras e ações de quem muito está dizendo e fazendo.

E aqui escrevo sem medo de errar. Quando algo acontecer no Brasil que sirva para um despertar completo de uma consciência coletiva que não está adormecida, mas que não consegue impulsionar ações de transformação completas, o joio será separado do trigo. Qual é o legado que cada um vai deixar?

Estourando rojões nesse terceiro mês de 2012, logo após o Ano Internacional para os Povos Afrodescendentes, estar dizendo algo que muita gente não diz. Juventude não significa necessariamente inexperiência. Para isso Baoobaa nasceu – seguindo forte tradição simbólica de resistência, igual o povo africano – para demonstrar que jovens se preocupam e interferem qualitativamente em questões sociais de relevância do Brasil e até mesmo de outros cantos do mundo. Trazendo à tona outra juventude que se mostra, mas não é retratada. Fazendo das palavras daquela canção a mais pura realidade: vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério. O jovem no Brasil nunca é levado a sério.

Ilustração Rodrigo Kenan

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