Minhas raízes estão firmes como as de um Baobá

Nov 28, 2016   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  No Comments

Por Jean Mello

Sarau do Projeto Raízes no Museu da Imigração. Foto: Isidro Sanene

Sarau do Projeto Raízes no Museu da Imigração. Foto: Isidro Sanene

Não conheço profundamente a literatura africana e os aspectos históricos que comprovam o quanto essa cultura influenciou a nós brasileiros. Eu disse que não conheço os detalhes, mas tenho noção do impacto que tudo isso gerou em minha vida enquanto escritor.

Não me culpo por isso – digo a respeito de não saber quase que na totalidade – mesmo sendo um escritor, um jovem intelectual à beira dos 33 anos de idade.

Por que me culpar por não saber na completude se apenas recentemente a “Coleção Geral da História da África” foi traduzida para o português?

Como iria conhecer se apenas em 2003 foi promulgada a Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, tornando obrigatório na educação básica o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil? Sem contar que, mesmo com mais de uma década após a obrigatoriedade, ainda nem podemos pensar em tantos avanços. Continuamos lutando para implementar o que na legislação já é um direito.

Só mesmo por um milagre eu saberia.

Em meu tempo de aluno do Ensino Fundamental ou Médio, em muitas aulas de História, negro era sinônimo apenas de escravidão.

Lembro-me de um passeio organizado por uma das escolas em que estudei, fomos para a nascente do Rio Tietê, em Salesópolis. Aconteceram, muito antes do dia em que viajamos, vários estudos sobre as atrações com que iríamos nos deparar por lá. Uma delas era a visitação a uma antiga senzala, preservada quase que intocada, para vislumbre dos turistas. Pronto, missão cumprida para a bem intencionada professora. Estava inserida a “única coisa que importa saber sobre os negros capturados em sua terra natal e trazidos ao Brasil e outros lugares do mundo”.

Os olhares estranhos em minha direção começaram bem antes de irmos para o passeio que para mim já tinha se tornado um pesadelo.

Quando lá chegamos, para muito além da atração principal (a nascente do rio, lembra?), ficamos a maior parte do tempo vendo como eram tratados os escravizados. Todos ficamos horrorizados. Uma boa parte dos alunos, inclusive a professora, ficaram com pena de mim e dos meus antepassados.

Nessa época estava na quarta série.

Em momento nenhum os mais adultos, responsáveis pelas atividades programadas para aquele passeio, ressaltaram os momentos gloriosos das dinastias do continente africano. Como eram os negros africanos escravizados, antes da colonização e da escravidão?

Hoje, com maturidade, e conhecendo um pouco sobre algumas práticas pedagógicas não tão boas, realizadas na Educação Básica, acho que ela só perde para uma professora que quis remontar o navio negreiro, usando a própria sala de aula como ambiente teatral, na Educação Infantil.

Imagine só o espanto das crianças, especialmente as negras, as poucas que tinham, por se tratar de uma escola particular, e o terror que isso gerou para os pais e para toda escola?

Só depois dos 18 anos de idade iniciei essa busca. Estou até hoje em constante renovação desses preciosos conhecimentos. Não só para escrever ou enquanto ferramenta de pesquisa. Jornada de vida.

Os nomes das pessoas que me ajudaram e continuam ainda contribuindo nessa empreitada foram citados inúmeras vezes em meu blog e nos meus livros publicados. Recentemente mais um intelectual entrou para essa lista, o escritor e artista plástico, Isidro Sanene. Você pode conhecer um pouco da história dele, bem resumida, em uma matéria de sua própria autoria.

Passo então a destacar algo que presenciei no dia 19 desse mês da Consciência Negra. Fui ao Museu da Imigração em São Paulo prestigiar o sarau do Projeto Raízes, em que o poeta citado é idealizador.

Museu da Imigração, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

Museu da Imigração, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

Confira algumas palavras ditas sobre o sarau na página deles no Facebook:

Este foi o nosso primeiro sarau ao ar livre, sarau migração África contou com a participação de diversos artistas africanos e comunicadores culturais, assim como o dançarino congolês Tyfs, a memorialista de Cabo Verde Lutcha, o poeta e artista plástico da Nigéria Chikezie, o cronista e escritor brasileiro Jean Mello.

O tema foi em volta da migração africana e a contribuição que o africano tem a contribuir na sociedade brasileira. Foi um sarau fora do habitual, choveu muita poesia africana no microfone aberto, dança e música fizeram parte do cardápio principal do sarau.

Poesias, músicas e histórias sobre os países africanos. Nesse dia especialmente sobre a influência da cultura africana no Brasil, não foi sobre um país específico como é comum nas realizações dos saraus do Projeto Raízes.

Recebi amplo espaço para recitar meus escritos e falar de projetos dos quais faço parte ou que ajudei a criar.

Devo admitir, pulsou em mim uma africanidade sem tamanho, nunca sentida antes nas leituras de livros ou nos eventos que participei em universidades, com irmãos negros brasileiros e de países da Mãe África.

Na véspera do dia em que trazemos à memória Zumbi dos Palmares e toda a luta da população negra para superação da escravização e do racismo, senti uma autêntica negritude, soprada diretamente do outro lado do Oceano Atlântico.

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