Cronista de um tempo ruim

Nov 4, 2011   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  1 Comment

E é melhor você aprender a lidar com toda essa inveja, esse ódio. Botei a rua no pódio e não tá nos meus planos tirá-la de lá no próximo episódio.
Emicida

Eu descobri que azul é a cor da parede da casa de Deus.
Charlie Brown Júnior

No florear do dia surge um novo escrito, algo qualquer. Sem pretensão de ser detentor de nenhuma verdade.
Consumido pelo tempo, ao acordar de longo pesadelo, aqui estou para dizer algo que não seja comum. Com alguma indignação que move minhas ações em direção à correção injusta, pelo menos as que estão aqui perto de mim e que posso, de algum modo, intervir. Pode chegar comigo…

Impacto, transformação, romantismo, um pouco de desligamento da realidade palpável, sentimento de solidão e ao mesmo tempo de coletividade.

O que sobra ao escritor? Inspiração que não chega nos momentos que se precisa, escritos em documentos eternizados e que os próprios se arrependem de ter escrito. Pelo inacabamento, pela mudança constante de pensamento que cada ser humano encontra em diversos dias de tempestade da consciência ou pelo resplandecer do mais belo caminho.

Então, para registrar sobra a criatividade da crônica, a sinceridade de um poema, qualquer texto acadêmico um pouco mais rebuscado, a alegria de ver outras pessoas sendo afetadas pelo que produzo, criando realidades que não dá pra ver que foram criadas, a não ser ao passar do tempo.

Ouvindo os comentários de quem nunca se poderia ouvir se não fosse por intermédio da produção intelectual – aqui não posso esquecer-me do impulsionar da internet.

A pobreza interpretativa está justamente quando o escritor é avaliado pelo que estudou nos antros das universidades, e não pelo que viveu na contemplação estética da vida. Para mudar qualquer realidade é que escrevo. Causa algum impacto e move alguns sonhos. Apenas dá pra ler um bom livro quando o autor fala daquilo que viveu, mesmo que seja através de seus personagens. Cabe pensar o que motivou um autor criar uma história e não outra, com qualquer tipo de enredo. Margem para reflexão – o livro escrito, na maioria dos casos, é o que o autor coloca pra fora e sente alívio ao publicar o que estava apenas dentro da alma.

E não venha me dizer que não tenho autoridade para falar, pelo fato de não ter nenhum livro publicado nesse momento. Vivo no tempo em que nasce um escritor nos blogs, nos sarais na periferia, nas oficinas pedagógicas de algum educador utópico e que ainda acredita de que, ao dar mais passos, mesmo tendo a certeza de que vai continuar a caminhar, é o alicerce da existência humana. Quando me coloco como escritor e leitor, compulsivo pelo que faço, digo ao mundo que, por certo, estou mostrando uma parte de mim que só pode ser conhecida por quem lê as palavras que grafo. Mesmo assim, ao analisar o que faço, percebo que o próprio tempo vai moldar o que sai daqui de dentro. Enquanto esse grande tempo não passa espero que tenha paciência em acompanhar, quase em tempo real.

Em casa, ao andar em um ônibus, quando dirijo em qualquer avenida, em oficinas pedagógicas, sem deixar de lado a universidade, vem sempre na imaginação do primeiro parágrafo, sinalizando que tenho que grafar algo. Nem me preocupo quando aparecem às palavras, não tem como esquecer nada. Geralmente não anoto, até porque nem todos os lugares ou situações são propícios a isso, por saber que o que penso vai embora apenas quando paro para transformar as belas palavras, ou palavras belas, em uma produção que fale primeiro comigo e depois com você. Mesmo assim, como todo esse aparente romantismo, sei ao certo que sou um “Cronista de um tempo ruim”.

O livro que inaugurou a criação do Selo Povo é um compilado de 21 textos de Ferréz, publicados na Revista Caros Amigos, Trip e nos jornais Folha de São Paulo e Lê Monde Diplomatique Brasil. Não vou me propor a comentar os aspectos do livro, algumas pessoas já fizeram isso. Dentre elas, a opinião de José Nabor do Amaral.

Nesse momento, apenas recomendo a leitura do livro, sabendo, que eu mesmo, considero que sou um “Cronista de um tempo ruim”. Faz tempo que está circulando por aí entre livrarias, igrejas, padarias, galerias, lugares que se espera encontrar livros para serem comercializados e outros em que não é tão comum achar.

Sou leitor assíduo de várias obras literárias. Quando se lê muito, depois de um tempo, pelo menos em minha experiência, a tendência é ir se tornando mais seletivo quanto às leituras. Sabendo que hoje em dia sou mais crítico quanto ao que leio, apenas faço questão de acompanhar escritores mais conectados ao que acontece no concreto.

Vale a pena ler o que nasce apenas da imaginação. Mas, é muito mais sensato ler o que se pode usar em dias comuns. Pelo menos até agora os livros de Ferréz cumprem essa função, pelo menos pra mim.

Trata-se desse tempo repleto de avanços que faz com que outras coisas possam ser pensadas. Coisas que até pouco tempo atrás não podiam ser discutidas com a liberdade merecida. Discussões mais abertas e com a força merecida em nossos dias. Mesmo com maior abertura e sabendo que, hoje em dia, dá pra desfrutar de um lugar ao sol, não esqueço que vivemos tempos ruins.

Escrever é descobrir o que insiste em permanecer encoberto. Penetrar em lugares que passam a ser conhecidos após grande esforço. Às vezes acontece de, entre uma ideia ou outra, nascer um escrito em poucos minutos.

Desvendar é revelar o que estava em oculto, um cronista faz isso mesmo quando não quer fazer, apenas pelo simples fato de descrever ou quando revela suas opiniões a respeito daquilo que relata. Se essas palavras forem mesmo poéticas, nem sei e nem quero saber.

Vamos nos mover em direção a qualquer tipo de transformação artística. Só dá pra fazer isso fazendo arte? Há um grande hiato entre a contemporaneidade e o que de fato influenciamos com as nossas produções artísticas.

Para os que acompanham minhas postagens, é muito simples saber que alguns assuntos que estou tratando aqui já falei antes. Tudo em linguagem simples, escrevendo como quem conversa. Não raro até de modo confuso. Quase nunca apresentando dados que apenas querem comprovar inúmeras hipóteses que passa pela mente.

Nesse espaço em que até falo de modo poético, não posso esquecer de que em São Paulo, no Brasil ou no mundo, ainda se vê Rios de Sangue.

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