Comunidade Escolar…

Out 25, 2011   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  1 Comment

 

 

Quanto mais a comunidade escolar se une em prol das necessidades da educação, mais existe desenvolvimento e encontra meios de superar as dificuldades que vão aparecendo pelo caminho – sempre dá pra arrumar desculpa para não enfrentar os problemas de frente e colocar a culpa em terceiros.


Aplaudo de pé diretores que encaram a função de representação da escola.

Choro de emoção ao ver que a maioria dos professores são verdadeiros heróis, até mesmo por diariamente viverem a realidade de ter três turnos de trabalho, muito mais de oito horas por dia, para poder garantir um salário que está muito longe de ser digno. Isso sem contar os períodos de correção de prova e outras atividades que os deixam longe de atividades pessoais e familiares. Ainda os chamam de preguiçosos, falando que nunca fazem nada. Queria ver qualquer pessoa que escreve nessas colunas, falando barbaridades, ficar ao menos um dia no lugar dos heróis da educação. Não seriam capazes, não conseguiriam suportar a responsabilidade, quando não exploração, de estar no ambiente escolar, muitas vezes hostil por conta da vulnerabilidade social. Quem é que pode opinar acerca de uma realidade que não vive? Acho que perdi essa parte da história que dá legitimidade para alguém que está sentado atrás de um computador dizer o que é ou não verdade.

Diferente dos escritores que acompanham algumas coisas de modo presencial, colocando no papel apenas o que viram de fato ou viveram na pele. Agora, quem nunca pisou em uma escola localizada na periferia, onde tem uma população que todos os dias enfrenta o fato de viver com a menor fatia da renda, não tem autonomia nenhuma para falar algo acerca disso.

Observo em oficinas pedagógicas jovens poetas, amantes da leitura ou de outras formas de intervir na realidade, que são esquecidos e mesmo assim continuam acreditando que podem mudar qualquer realidade que esteja os incomodando. Recuso-me a acreditar que essa geração é a geração que não leva nada a sério e que não tem coisas de qualidade. Apenas sei que o que a grande mídia faz é mostrar uma juventude alienada. É bom lembrar que essa mesma mídia, que trabalha com conteúdos alienantes, foi pensada por adultos e não pelos jovens dessa geração.

Cansei de ver jovens que andam quilômetros para chegar na escola, para nas aulas ouvir que são desinteressados.

Alguns jovens que vão para escola de chinelo, por não terem dinheiro para comprar um tênis, e serem chamados de relaxados.

Centenas de crianças e adolescentes comem apenas uma refeição por dia, a que é servida na merenda. Mesmo assim, antes da comida por não conseguirem prestar atenção, de tanta fome que estão sentindo, são questionados.

Por que temos escolas que não conseguem olhar para as particularidades? Pude ver alunos que apenas reclamam dos professores. Professores que falam que os alunos não querem saber de nada. Será que todos os alunos?

Pais que falam que a escola não ajuda na educação das crianças e dos adolescentes. Isso quando não depositam todas suas esperanças de que seus filhos serão “domados”, “docilizados”, ao entrar nas quatro paredes da sala de aula. Diretores não valorizar os professores da escola, gritar com os alunos e criticar os pais quando não estão na presença dos mesmos.

Também observei a maioria das pessoas que não conhecem a importância dos funcionários, dos que muitas vezes são chamados de operacionais, mas que não realizam as “operações” consideradas de suma importância no ambiente escolar. Na verdade, em quase todo tempo muitos nem sabem da existência dos funcionários, a não ser na hora do lanche, para carregar peso ou nos momentos que tem a necessidade de uma limpeza urgente. Quem é que pode ser valorizado no ambiente escolar sem ao menos ter uma representação nas reuniões pedagógicas? Quais são os momentos que podem propor soluções para sanar problemas antigos, ou mesmo dizer o que está dando certo nas abordagens dos professores? Eles são parte da equipe e precisam ter a devida atenção, sair até mesmo da invisibilidade.

Como alguns pais que trabalham quase doze horas por dia podem ser acusados de não ligar para os filhos por não estarem nas reuniões de pais e mestres? É mesmo obrigação? Será que a escola não pode desenvolver estratégias de comunicação para alguns casos que os pais desejam estar presentes, mas não podem nem sonhar em pedir autorização no trabalho, porque precisam garantir o sustento do lar?  

Quanto jogo de acusação e poucas estratégias para solucionar os problemas. Muito tempo é perdido. A comunidade escolar deveria ser mais unida. Quando falo de comunidade escolar, no mínimo estou falando de professores, alunos, direção, funcionários, pais e comunidade no entorno da escola. Queria ver mais projetos que unissem estas personalidades, pessoas que fizessem da escola um lugar comunitário, e não um local de guerras constantes.

Talvez seja a hora de pegar os livros que estão jogados em uma sala qualquer e transformá-la em uma biblioteca. Se ela for grande o suficiente, porque não em uma sala de leitura? Quem sabe alguns professores ou alunos desejam desenvolver algum tipo de atividade?Como é que podemos fazer da escola um lugar que compartilhe habilidades? Ações comunitárias ajudam amadurecer os indivíduos.

Já pensou que bom seria para sua escola ter uma rádio comunitária? Dá pra desenvolver muitas ideias legais em cima disso. Quem sabe até se tornar uma importante referência, dentro e fora da escola, reunindo essa ferramenta com outras formas de divulgação? Ainda vou um pouco mais longe… Uma sala de vídeo, lugar para ver filmes legais. É bom tomar cuidado, porque aí é rola um namoro às escondidas. Escurinho… É assim que dura alguns relacionamentos, posso garantir que centenas começam na escola. rs

Voltando para um assunto mais técnico, pude constatar, como assessor de algumas escolas estaduais, em um programa educacional de uma empresa privada renomada e uma organização não governamental de bastante peso no terceiro setor, que parte da comunidade escolar insiste em culpar os alunos, até mesmo por problemas estruturais. Por sua vez, alunos culpam os professores, isso quando não a direção. Assim sucessivamente… Lógico, não posso ser injusto, porque vejo também que muitas pessoas enxergam os problemas e os encaram, olho no olho, resolvendo as questões com transparência, naturalidade e maturidade.  Agora, não dá para eximir os representantes governamentais de seu próprio papel. Também é necessário que a comunidade escolar – todos sem exceção – saiba de quem cobrar cada coisa. É fundamental que conheçam o organograma das funções políticas e que saibam a quem podem se resportar a nível federal, estadual e municipal.

Não pense que me esqueci das cenas de violência, tráfico de drogas dentro e fora da escola, morte, desrespeito… Mas, em outras escolas, de maior poder aquisitivo, em que o segurança vai levar e buscar crianças e jovens na porta da escola, o máximo que acontece de grave é pessoas ter crises existenciais. Na verdade é simplesmente por sabermos que quando algo de escandaloso ocorre facilmente é abafado.

Não desconsidero a gravidade de cada problema, porém, temos que conviver em um país que algumas escolas têm até heliporto, enquanto outras não têm dinheiro nem para levar seus alunos para um passeio. Será que tenho que olhar tudo isso e nada dizer? Só que não dá para gastar um texto inteiro dizendo tudo que o jornal fala todos os dias. Assim, de alguma forma, posso ser menos repetitivo.

Assista ao filme: Pro dia nascer feliz. Tenho certeza de que esse material vai fazer você ver outras realidades escolares que o Brasil se nega a ver e outras que são veneradas, sem o ter o mérito de sê-las.

Como pode perceber, não é para alguém especificamente. Ela é comunitária. Portanto, divulgue, para que ela cumpra essa função. Não como uma verdade, simplesmente por ela ser uma maneira de ver a realidade, mas por ser a visão de um educador que lê o mundo e deseja que outras pessoas leiam o mundo. Afinal de contas,as pessoas se educam em comunhão. Como dizia o grande mestre Paulo Freire. No mais, apesar de não ter destinado essa carta para uma pessoa específica, fica aqui meu desejo de ter contribuído.

 

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  • […] Mobilização pode ser também algo que está presente apenas em um trabalho classificado como pontual. Relatos, leituras de alguns momentos de um processo pedagógico que não se restringe às ações em sala de aula. São, na verdade, relatos de oficinas que procuraram tratar de importantes aspectos da realidade humana. Se elas deram conta disso? Os jovens vão dizer com as palavras deles. Uns mais tímidos, outros (as) mais desinibidos (as). Relatos de momentos… Relatos… […]

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