Anjos das Ruas

Aug 6, 2012   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  2 Comments

Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar.
Mateus 18:6

Em 2006, em uma das tardes da semana. Provavelmente quinta ou sexta, minha memória não é tão precisa quanto ao dia, mas o acontecimento está grudado no coração, na alma, em minhas lembranças fidedignas, nunca vai se apagar.

***

Por motivos óbvios crio um pseudônimo de Cauê para o adolescente de apenas 12 anos de idade, mas que tinha aparência física de nove anos de idade. Tudo isso em decorrência dos abandonos, traduzidos com todas as letras em violência exacerbada, que sofreu ao longo de sua prematura vida.

Tempo ainda curto. História densa. Com apenas seis anos de idade experimentou droga química, iniciado pelo próprio pai. Depois disso, o que revela em seus relatos consiste em desespero em fugir de chacinas e a tristeza das noites frias em calçadas sem nenhum cobertor para aliviar o medo.Idas sem volta no saquinho de cola, até a brisa acabar e a realidade voltar a bater na porta. Correria total quando os covardes de farda chegam sem nenhuma explicação, dando tiros em quem não pode se defender. Angústia em saber que a vida nas ruas é anônima, sem voz. Julgamentos aos montes de quem não sabe a completude das histórias. Dor ao extremo ao não saber se terá um amanhã qualquer.

Como educador não me achei merecedor de ouvir histórias escabrosas. Ao meu lado estava uma companheira de trabalho que sofria com os relatos, Ana Lúcia. Não dava para dizer que não. O menino cismou comigo, chorou ao dizer que nas semanas que estava naquele abrigo ainda não tinha entendido por qual motivo não havia ido de encontro ao que o seu corpo mais ansiava, um cachimbo cheio da brisa que dura apenas alguns segundos. Depois disso – apesar de saber que o maior problema não é esse, e que o ciclo não começa em uma tragada apenas – o poço é sem fundo, ainda mais para quem tem apenas essa alternativa.

Não vou embora tio Jean, apenas quando não aguentar mais. Encontrei um lugar em que alguém me cobre antes de dormir. Tem aqui tios e tias (educadores e educadoras), que procuram brinquedos comigo e contam histórias. Quero falar da minha vida pra você. Sempre que falo fico mais leve. (Cauê, 12 anos de idade)

E às vezes tudo transbordava de ódio, e em quem ele resolvesse descontar sua dor acumulada deveria entender que não era nada pessoal. Não raro eram os dias em que nosso amigo chorava com toda força e a abstinência não tinha prazo estabelecido para ir embora. Triste, real, doloroso, parte da realidade de centenas de crianças que dormem ao relento enquanto alguns que exploram a imagem deles, ou os egoístas simplesmente, jogam do lado do sistema que mais mata.

Na época eu estava confuso. Apesar de ser um educador dedicado era mais jovem que hoje em dia. Jovem, mas não inexperiente. Longe da imaturidade. Íntegro. Não sou eu mesmo que digo, minha companheira de trabalho e outros invejosos, guerra boba de ego, que não leva a lugar algum, reforçavam o que era evidente.

Nada que me chamasse atenção a não ser os olhos marejados de Cauê. O cálice da dor que insistia em transbordar em saber que não foi sua mãe que não quis conviver com ele. Depois de o ter gestado na prisão, chorou o mais alto que pode ao lhe ser negado o direito em ver seu filho, pelo menos foi o que sua vó insistiu em dizer durante o pouco tempo que Cauê desfrutou de um lar.

Muitas foram as instituições que Cauê passou. Quase nenhuma ele confiava a ponto de querer voltar. Aliás, suas revelações sobre elas me deixaram envergonhado, constrangido, por saber que muitos são os que sem comprometem com o ato educativo no discurso. Só que a prática nada tem que ver com o que sai da boca ou o que é grafado em papel.

Abrigos que empregam educadores que abusam sexualmente de meninos e meninas. Crianças que não têm um brinquedo descente a sua disposição, enquanto a direção anda de carro importado, blindado. Com medo de que? Realidade que nem quero maquiar. Nem tem como, está tudo diante de nossos olhos. Muita gente que diz combater a miséria pousa de helicóptero na sede de seu empreendimento “social”.

Apenas um adendo, uma vez um político famoso, ofereceu-me uma bolsa em uma universidade e uma caixa de vinho português para que eu convencesse adolescentes que já tinham idade para tirar o título fazer tal coisa e depois votar nele. Lógico que recusei tal proposta. Infelizmente, uma pessoa que trabalhava comigo aceitou.

E a situação de risco que perdurou na vida de Cauê tem ligação com a corrupção de algumas instituições que ele passou e que não deu nenhuma importância pra ele. Deixa estar… Um pequenino, que teve seu direito de ser a prioridade negado, assim como outros milhões. Diferente do Mundo ao Avesso descrito por Eduardo Galeano, em que os mais podres são conhecidos como os mais limpos, alguém que muito explorou, no dia em que a ordem perecer, haverá de pagar. Preço inenarrável. Valor sem tamanho, que não dá para ser medido, muito menos monetariamente.

Aparência sofrida, marcada. Acho que ouvi isso em algum lugar, na frase de alguma banda de rock.

Na zona sul da capital vejo tristes lindas mansões. Fechadas, guardando tesouros no cofre, que não pagam o preço da morte. É duro ver o futuro da nossa nação bater no vidro do carro, um rosto marcado, cansado. Do outro lado olha só o que vi: carro importado pra deputado, avião de luxo pra senador, fartura na mesa da corrupção… (Katsbarnea)

Poucos sorrisos tinha Cauê. Histórias positivas eram raras quase na mesma proporção. Simples, não falarei das flores sendo que nesse caso não houve primavera.

***

No Parque do Carmo resolvi levar um grupo de crianças e adolescentes. O dia estava quente, nos convidando para um passeio a pé. Sim, o abrigo era bem perto, costumávamos ir sempre. Como ninguém estava enclausurado – pelo menos em minha avaliação, a de parte da equipe de educadores e da coordenação – fomos sem nos preocupar com o que muitos chamavam de fuga.

Não estavam na prisão, apesar de nos preocuparmos com a segurança deles. Difícil definição do que acontecia. Mais complicado ainda é a responsabilidade em saber que quanto menos erramos melhor é para nós mesmos e aos acolhidos. Porém, esse era o dia em que eu, como educador, iria de encontro ao erro. Não pense que carrego alguma culpa comigo – meu equívoco nada tem de ligação com o alimentar do sistema. Essa culpa para meu travesseiro não levo. O triste é quem muitos que jogam esse jogo também não levam. Eles não têm uma glândula chamada consciência.

Tratam as pessoas, gente que eles nem reconhecem como gente, como se fossem fichas de cassino. Aceitando várias fatias da glória de quem nem gosto de citar. É, tenho que reconhecer que esse tipo de aceitação está presente em todo canto, muito mais que imaginamos. Basta gritar bem alto e fazer sua escolha. Muitos que você admira já fizeram…

Cauê, bem depois chegamos ao parque, após brincar em todos os brinquedos e deixar por último a balança, aproximou-se de mim.

– Jean (não me chamava mais de tio), você é firmeza mesmo. Valeu…

– Pode crer Cauê, mas por qual motivo está me agradecendo? Se for ver eu que tenho de te agradecer…

– Saiba que sempre vou me lembrar de você e da Ana Lúcia, nunca vou esquecer vocês dois.

– Eu também não Cauê… Firmeza?

É, quão ingênuo fui… Nem percebi que ele estava se despedindo… Em meio à tantas crianças que me cercavam não percebi por completo o grito de uma delas. Passado alguns minutos percebi que Cauê havia desaparecido. Tive de voltar e fechar meu expediente sem a presença dele e com as inúmeras acusações de outros educadores que disseram que eu havia perdido alguém que não podíamos perder.

Uma semana depois, exatamente, recebemos a notícia de que Cauê foi executado com vários tiros, todos na cabeça. O motivo? Ninguém sabe até hoje dizer… Apenas ouvimos um alienado dizer… “Menos um trombadinha para atormentar São Paulo”. Ainda falta muito desenvolvimento em todo Brasil. Esse pensamento é uma das coisas que considero colonização mental.

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