A ilusão da ostentação

Apr 27, 2013   //   by Jean Mello   //   Artigos, Blog, Crônicas  //  No Comments

O problema da ostentação é justamente a exaltação exagerada do consumo. Poder em que o que é caro pode calar vozes que antes tinham o que dizer. Irmãos e irmãs ajoelhados diante das ilusões enfiadas goela abaixo.

Calma, deixe-me explicar meu singelo ponto de vista. Demorou para chegar nas mãos dos mais pobres o direito capitalista de consumir – em quantas parcelas for necessário – aquilo que antes era impossível a população de baixa renda ter acesso. Os efeitos disso não são imediatos, as parcelas são longas e ainda sem entrada. Como tudo, vai demorar muito tempo para que percebam. Até lá inventam outra coisa.

Problema nenhum quem nada tinha ter o direito de ter, desde que o produto não se transforme no deus nosso de cada dia. Sim, parece que os carrões que vemos circulando nas quebradas, os celulares com mais músicas que as baladas, os computadores, as motos etc., serviram como algo paliativo para diminuir ainda mais a possibilidade de percepção de que ainda falta educação de qualidade, uma saúde que realmente atenda as necessidades das pessoas que mais precisam, a falta ou sucateamento de espaços para promoção da cultura das e nas periferias do Brasil.

Pode parecer demagogia, quem não quer ter o melhor? Quem não quer impressionar? A resposta é simples: o que mais vale não é o que queremos, e sim o que realmente precisamos. Quais coisas almejamos realmente? O que nos impulsionaria a ter ligação não apenas com os bens simbólicos, e sim com o poder de mudar a realidade? Não precisa se esconder e nem colocar debaixo do tapete a sua resposta. Se coloque para que possamos ouvir o que realmente pensa, sem máscaras, sem qualquer maquiagem. Cansei de falsos sorrisos quando o que realmente precisamos é de sinceridade.

Excesso de motos, carros, desejo, perdição, ostentação. Antes não tínhamos nada disso, agora temos. Legal, mas estão nos negando outra coisa maior.

Estão nos entretendo, não mais apenas com as histórias colossais novelísticas ou do amplo mercado cinematográfico. Não mais apenas com as drogas mais pesadas e com alto poder destrutivo. Multiplicou-se o foco ilusório aos quais estamos submetidos. Sim, duro admitir, mesmo com novidades que podem ser comemoradas sem nenhum tipo de culpa, arrogância ou exagero: nossas quebradas estão quebradas. Ainda estamos divididos na percepção ou não percepção. Ainda, infelizmente, iludidos.

Retratos alienados, mentes vazias ou ocupadas apenas pelo desejo de ter mais. No meu entendimento estamos cercados de artifícios que não permitem que realmente tenhamos a chance de saber o que está a nossa volta. Nossos sonhos estão quebrados, em detrimento do exacerbado consumo. “Pobre é o diabo, eu odeio ostentação”, diz Mano Brown. Não odeio quem ostenta, apenas não gosto do que tentam imprimir na multidão enquanto prioridade, acima de tudo e de todos. Quem não quer ter? Isso vale mais que os seres humanos?

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